Cuidados paliativos intensificam tratamento digno e humanizado

 In Fundação, Hospital Getúlio Vargas

“Ele apertou forte a minha mão e eu disse: paizinho tu podes ir e eu vou ficar bem. Choramos, apitaram todos os aparelhos e ele, que não chorava há um mês, não foi. Durante uma semana eu perguntei se tinha dor por causa das escaras e ele apertou minha mão duas vezes num sinal positivo. Meu pai sofreu um acidente vascular cerebral, tem uma doença degenerativa, é soropositivo e podia já ter falecido. Interna com frequência, se recupera e volta estável para casa. Converso com a psicóloga do hospital que ele está partindo e para darmos conforto para amenizar a dor dele”, afirma a cabeleireira Sabrina Duarte Gonçalves.

Há mais de uma semana o pai de Sabrina teve o último momento de lucidez na emergência do Hospital Municipal Getúlio Vargas (HMGV) em Sapucaia do Sul, pertencente a Fundação Hospitalar Getúlio Vargas (FHGV). Internado em um dos quatro leitos da Unidade de Cuidados Prolongados do hospital, recebe cuidados paliativos que são empregados pelos profissionais de saúde quando uma doença ameaçar a vida, for aguda ou crônica. Há 8 meses, o homem de 56 anos acumula baixas e altas hospitalares.

Na opinião de Sabrina, o pai terá nova alta porque esteve hospitalizado em situação pior, com infecção pulmonar grave e rins quase parando. “Ele vai sair e vou cuidar dele como sempre. Quando precisar, voltamos para o hospital. Apenas me preocupo com o cuidado paliativo e para ele não sofrer. Se ele está com falta de ar, trago para tratar porque se deixar em casa ele vai morrer sufocado”, detalha. Para cuidar do pai, a filha parou de atuar como cabeleireira. Mesmo com dedicação exclusiva, ela conta com a ajuda de uma irmã e do marido. Mãe de quatro filhos, o mais velho de 16 anos também colabora com os cuidados do avô.

Uma cama hospitalar doada acomoda o senhor Valmir Daniel Gonçalves quando está em casa. Além disso, com a nova alta, ele precisará de um aspirador de secreção. Enquanto acompanha o pai internado no HMGV, Sabrina lê O jardim das rosas, um romance espírita. “Acredito em Deus e vou ao centro espírita porque me dá um conforto de saber que aqui não é o fim. Sempre gostei de ler livros espíritas e estou indo mais para me ajudar a me preparar. Saio mais instruída para lidar com a morte dele, mas não ameniza meu sofrimento, serve para eu entender que a morte é o melhor, e que Deus o leve no momento certo. Não tenho mais esperança que meu pai fale e nem coma pela boca, pois ele sobrevive”, enfatiza.

De acordo com a psicóloga Natália dos Santos Pires, os cuidados são individuais e cada pessoa tem a sua religiosidade independente do credo. “E se a pessoa não acreditar em nada tem que ser respeitado. A relação das pessoas com a morte é diferente em função da religiosidade de cada um. Vejo individualmente cada caso, como a pessoa lida com a morte e a religiosidade, e ainda, como são os vínculos naquela família para dar o melhor suporte possível”, comenta.

Cuidados paliativos

A enfermeira Tailine Silveira explica que diante de uma doença que ameaça a vida é preciso uma abordagem que envolva os aspectos físico, psicológico e social para aliviar o sofrimento. “Quando não tem mais o tratamento curativo, focamos no alívio do sofrimento do paciente para que ele não tenha dor e nem sofra os sintomas da doença, promovendo uma qualidade de vida enquanto houver”, complementa.

O médico intensivista Sandro Carbonel Moraes observa que se o paciente tiver condições de ir para casa e todos os sintomas forem aliviados, tem alta para ficar mais tempo com a família. “Se não tiver condições de ir para casa, mantemos todo o suporte no hospital sem apressar nada e com mínimo de sofrimento. Às vezes, o sofrimento para a família é inevitável, porém fizemos uma abordagem para que eles entendam, lidem melhor com essa questão e não tenham luto patológico”, declara.

Resolução

A aplicação dos cuidados paliativos nas instituições de saúde pública é recente. O Ministério da Saúde publicou no final do ano passado uma resolução que normatiza os cuidados paliativos como parte dos cuidados continuados integrados no âmbito do Sistema Único de Saúde. A resolução engloba toda a pessoa afetada por uma doença que ameace a vida, seja aguda ou crônica.

Os cuidados paliativos ocorrem a partir do diagnóstico de uma enfermidade, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida do paciente e dos familiares. Um paciente diagnosticado com câncer com metástase em vários lugares do corpo, por exemplo, pode receber o cuidado junto à família, para que tenha uma condição de conforto até o final da vida. Entre os cuidados estão apoio psicológico e medicamentos para aliviar dores. Além do câncer, doenças neurodegenerativas como as demências – Alzheimer e Parkinson – também podem receber o cuidado.

O Brasil encontra-se em processo de envelhecimento populacional acompanhado de avanço tecnológico no campo da medicina e da saúde, modificando a pirâmide etária e aumentando a prevalência de doenças crônicas não transmissíveis. Essas considerações integram as justificativas da resolução.

Direito

O paciente tem o direito de falar para familiares, deixar escrito e até registrado em cartório o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Com esse termo, fica registrado que se a pessoa em algum momento da vida não conseguir responder pelos atos e não tiver como reverter o contexto, deseja que não sejam adicionadas novas medidas que prolonguem o martírio. Mesmo que a família informe que o paciente não quer ser entubado e levado para uma unidade de terapia intensiva (UTI), as equipes médicas avaliam cada caso para saber se há reversão ou não. “Às vezes, vemos que é o momento final da vida, não prolongamos e nem levamos para a UTI”, esclarece o médico intensivista Sandro Carbonel Moraes.

No Brasil, não são permitidas a eutanásia e nem a distanásia. A primeira é a morte provocada do paciente com a intenção de aliviar o sofrimento, e a segunda, prática pela qual se prolonga por meios artificiais a vida de um enfermo incurável. “A ortotanásia é o que se preconiza com uma morte digna sem prolongar e nem apressar nada. Os cuidados paliativos se centram no alívio dos sintomas de alguma doença e iniciam bem antes da ortotanásia. Se não conseguimos vencer a doença, tentamos fazer com que o paciente viva com a menor quantidade de sintomas possíveis.”, informa Moraes.

Para o médico, a morte continua um tabu para a maior parte das pessoas que estão passando por essa situação. “Elas veem como uma perda definitiva e têm dificuldade para entender como algo natural que todos passam. A gente nota que quanto mais religiosa a pessoa, há uma parte espiritual mais forte para lidar, o que ajuda bastante”, finaliza.

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